quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Purabossanova - Sérgio Britto & Rita Lee





É, ele se apaixonou pelo concreto. Um monte deles. Apaixonar é pouco, ele amou mesmo. Aí no meio desse tanto de concreto, tinha um imenso parque ao céu aberto. Lá ele descansava, recuperava as energias. Pelas ruas, onde ficava todo esse concreto, ele andava diariamente deslumbrado, sem acreditar que estava por ali. Em silêncio, sempre em silêncio, como uma prece, pra agradecer por estar ali, era seu sonho. Cortou aquelas ruas em todas as direções. Sentou nas inúmeras praças entre o mar de concreto, só pra observar aquele povo tão diferente do seu. Só pra observar e concluir que naquele instante ele fazia parte daquela realidade. Era de fora, mas se sentia mais dentro do que no seu próprio país. Era um refugiado de si mesmo. Um dia a vida atropelou ele lá, naquele mar de concreto e ele teve que voltar. Foi um dia triste, muito, muito triste. Foi embora contrariado, mas ali, naquele mar de concreto ele não conseguiu chorar. Aquele monte de concreto e as pessoas que ali adejavam a realidade, não oportunizava o choro. Era alegria demais estar ali. Mas aí, ele entrou no avião sozinho, sentou-se sozinho e ao afastar do solo, aí sim ele se desfez em tristeza. A tristeza do partir, do arrependimento, estava feito, a tristeza do medo. Está preso no meio, ego ferido, mil ideias sem execução. Sempre correndo atrás de uma espera que não acaba nunca. A espera de voltar pro concreto que ele amou.




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